A Prostituta Justiça

O alcance da sua visão é tão grande quanto o interesse envolvido.

Por definição, a justiça é a garantia e o respeito às leis estabelecidas. No entanto, nossas concepções outrora justas, são vistas hoje com uma reprovação quase trágica, que nos remonta à monstruosidade dos atos de nossos antepassados. Perseguições religiosas, execuções públicas, escravidão, privilégios divinos e uma infinidade de atrocidades foram, e ainda são cometidas, balizadas pela justiça de então.

À medida que evoluímos e descartamos o subjetivo caminho do misticismo e da ignorância, nossas leis são aperfeiçoadas seguindo um critério acadêmico-científico, político e cultural da sociedade em que estamos inseridos. A obediência e assimilação dessas leis tornam-se então o modelo a ser seguido por todos os membros desta mesma sociedade, dirigida pelo governo, na maioria das vezes, democraticamente constituído.

Mas onde exatamente a justiça falha? Como um produto intelectual humano, e por consequência falho, a interpretação da lei diverge de acordo com a abordagem, inspiração momentânea, crenças pessoais, conveniência e, em alguns casos, interesses individuais daqueles que julgam.

A formulação das leis segue a conveniência dos grupos dominantes nas sociedades desenvolvidas; este é o exercício da democracia; a imposição da vontade da maioria sobre a minoria. Sob esse argumento, regimes autoritários e ditatoriais se travestem com a toga da legitimidade e cometem as maiores atrocidades contra todos aqueles que pensam de maneira diferente. Logo, estes se tornam identificáveis por etnias, crenças, costumes regionais, orientação sexual e/ou qualquer outra peculiaridade de determinado grupo. Normalmente as leis não beneficiam essas representações da sociedade.

Existem mecanismos que previnem a arbitrariedade e os devaneios do sistema, mas quanto maiores as questões envolvidas, maiores são os egos que precisam ser massageados. Desta forma, ao contrário dos processos puramente lógicos, racionais e matemáticos, a nossa justiça não pode ser considerada uma força equilibrada e imparcial; Na verdade, deve ser vista como mais um processo de convencimento intelectual entre as partes interessadas, independente do mérito daquilo que está, de fato, envolvido. Poucas são as decisões realmente corajosas. Poucos são os poderosos punidos pelos seus crimes.

A falta de conhecimento do povo, sobre seus direitos e deveres acaba resultando em crimes cometidos pela completa ignorância à respeito do sistema legal e pela mutação dos valores sociais em comunidades pobres e pouco assistidas. Mais devastadores ainda, são os crimes cometidos por aqueles que entendem bem as leis, e conhecem suas brechas e as maneiras de evitar a aplicabilidade das mesmas. Deste modo, a justiça torna-se uma conveniência em favor dos poderosos, quando deveria ser a garantia básica de todo e qualquer cidadão.

O excesso de leis tende a regular a vida da população, de modo a suprimir cada vez mais a individualidade em questões básicas como o compartilhamento de crenças íntimas de determinado grupo, o respeito à orientação sexual, a reverência à símbolos religiosos ou nacionais, bem como a transmissão de valores e costumes tradicionais, de geração para geração.

A variabilidade dos nosso anseios e de nossas percepções à respeito da natureza, convergem para que o respeito à liberdade, em todas as suas manifestações, seja a pedra fundamental daquilo que todos desejamos entender como justiça.

Esta entrada foi publicada em Filosofia, História, Opinião, Política. ligação permanente.

Uma resposta a A Prostituta Justiça

  1. isisnatel diz:

    Cuidado com as generalizações. Você pode estar cometendo uma injustiça com os justos. O ovo podre é o que cheira mais, mas não quer dizer que todos estejam.

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