Especial Semana Santa – Jesus de Nazaré – Parte 2

Jesus

Jesus era um Judeu

Para se entender melhor a época em que Jesus viveu, é preciso se aprofundar no contexto político-social de então:

De um antigo povo chamado Israel, surgiram 12 tribos patriarcais que, de acordo com a tradição judaica, teriam se originado dos doze filhos de Jacó, neto de Abraão, o patriarca de todo o povo.  Estas, unificadas pelo rei Davi, da tribo de Judá, foram mantidas unidas em período de grande prosperidade.

Após a morte de Salomão, filho de Davi, houve uma divisão as tribos de Judá e Benjamim, separam-se dentre as outras 10, formando-se assim os reinos de Judá, ao sul, com sede em Jerusalém, e Israel, ao norte, com capital em Samaria.

Com a conquista do Império Assírio, o reino do norte de Israel caiu, e o que sobrou das 10 tribos, desapareceu por completo do relato bíblico. Somente em 1947, Israel se viu novamente unificada como uma nação.

A tribo de Judá  sobreviveu e se manteve fiel à cultura e religião originais e daí, vem a designação Judeu, ou seja, do reino de Judá. Após diversas conquistas, entre elas, babilônica, egípcia, persa e grega, Judá caiu sob julgo romano em 61 a.c.

Roma, com a sua Pax Romana (paz romana), impunha a proteção do seu exército aos povos conquistados e permitia uma administração local, supervisionada e sustentada por governantes romanos. Salvo alguns casos, costumavam ser tolerantes às leis, costumes e o livre culto religioso dos povos vassalos. Tudo mediante o pagamento de extorsivos tributos, de forma a garantir a riqueza e grandiosidade do império.

A Judéia, região do reino de Judá, no tempo romano, era administrada por testas de ferro de Roma, como Herodes, o Grande. Após a sua morte, a Judéia foi divida em 4 reinos, tendo a Galiléia, onde Jesus começou a pregar, ficado a cargo de um dos filhos de Herodes, chamado Herodes Antipas. A administração da religião judaica, era dividia pelos grupos dos Saduceus e dos Fariseus, que eram como os partidos políticos da época; cada um com relativa discordância em relação ao outro.

Estes grupos, mantinham o controle religioso e administravam as sinagogas e o grande Templo de Jerusalém, o local mais sagrado e centro de todo o mundo Judaico, onde acreditava-se que Deus, em pessoa, habitava. Eram também os responsáveis pela leitura e interpretação da Torah, a lei Judaica e a condução de rituais, como casamento, circuncisão, purificação e sacrifício.

Neste contexto, diversos profetas, homens santos que, embora reconhecidos, não faziam parte de nenhum grupo religioso, pregavam a vinda de um novo rei Davi. Alguém que encontraria as tribos desgarradas e as unificaria com o que restou de Judá, sob um único e poderoso reino, como o de Salomão fora. Este vindouro rei, seria, assim como Davi, considerado o “Ungido”, em hebraico, o “Messias” e em grego, o “Cristo”. Surgiram diversos candidatos ao título e, na maioria das vezes, revoltosos auto-intitulados, formavam grupos beligerantes que eram massacrados pelo poder dominante.

Assim, Jesus nasceu, viveu e morreu em uma época turbulenta, e passou quase que inteiramente despercebido por Roma, o maior e mais poderoso império que o mundo já vira.

Após pregar na Galiléia, com um discurso diferente de tudo até então, onde buscava uma conciliação de Deus com Israel, através da remissão dos pecados e do auto-sacrifício do povo, Jesus trouxe para si, segmentos marginalizados daquela sociedade, como deficientes físicos, impuros por definição, prostitutas, escravos e outros trabalhadores pobres, de status inferior. Sua proposta era a de que todos podiam se salvar, através do arrependimento sincero, da caridade e do amor ao próximo e onde os mais humildes e puros de coração seriam os maiores no reino de Deus.

Para demonstrar o poder ao qual estava imbuído, Jesus realizava milagres, principalmente curas, que aumentavam sua fama como poderoso profeta, vindo da parte de Deus. A certa altura, Jesus se declarou filho de Deus, o que até então no mundo antigo, era comum à outras culturas, como a grega e a egípcia, mas foi uma novidade para os Judeus.

Surgiu ali um novo significado para a figura do Messias, que iria restaurar o reino de Deus, não na Terra, mas em um mundo espiritual. Entre alguns sinais desta novíssima proposta, Jesus escolheu 12 discípulos, fazendo uma alusão às 12 tribos originais e declarou que poderia destruir o Templo e reerguê-lo em 3 dias, obviamente, fazendo outra alusão ao seu próprio corpo ser o novo Templo, onde habitaria o próprio Deus.

Foi uma abordagem forte demais, que o fez entrar diretamente em rota de colisão com os dois poderes locais: A própria organização religiosa judaica e o governo romano; A primeira, por se declarar filho de Deus, e consequente maior autoridade do que a mesma, e a segunda, por ser um potencial insurgente contra o poder de Roma.

Identificado como um perigo ao poder estabelecido, Jesus provocou ainda mais a ira das autoridades judaicas, ao entrar em Jerusalém montado em um burro, outro sinal profético, para festejar a Páscoa. Este período, uma comemoração ancestral, que posteriormente foi identificada com a fuga do cativeiro egípcio pelo povo Judeu, sob comando de Moisés, inflamava ainda mais a já delicada situação.

Em Jerusalém, Jesus pregou no Templo, venceu diversos debates com Fariseus e Saduceus, realizou milagres e ganhou ainda mais notoriedade, uma vez que pessoas de todas as regiões próximas visitavam a cidade para a festividade.

Se você fosse um típico judeu naqueles dias, e quisesse se ver livre de um pecado, você encomendaria um sacrifício, porque derramando o sangue de uma pomba ou de um novilho no altar do Templo, seu pecado era perdoado aos olhos de Deus. Mas para que um sacrifício fosse válido, era necessário pagar um valor ao Templo pelo serviço e fornecer o animal, que seguia uma rigorosa padronização. O próprio Templo administrava a venda destas ofertas, o que gerava um lucro enorme ao grupo.

Por isso, é fácil de se imaginar o transtorno que Jesus causou ao condenar o comércio no Templo, com a famosa passagem em que, imbuído de certa ira, ele e seus seguidores expulsam os mercadores de lá. Posteriormente, Jesus também é identificado como o “Cordeiro de Deus”, que através do seu sangue, derramado no sacrifício na cruz, redimiu os pecados de toda humanidade, criando assim, uma nova aliança de Deus com Israel.

Assim, Jesus foi considerado blasfemo e capturado pelas autoridades judaicas, com ajuda de um dos seus próprios seguidores, Judas Iscariotes, em um episódio confuso, descrito nos Evangelhos e largamente debatido pelos historiadores. Os acontecimentos posteriores, estarão na parte 3 deste especial.

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